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11 abril 2011

O Getsêmani: a solidão de Deus e a nudez do nosso coração


Por Leonardo Gonçalves

O capítulo catorze do evangelho de Marcos começa dizendo que os sacerdotes e escribas buscavam, com dolo, prender a Jesus (Mc 14.1, RC). Como não conseguiram encontrar algo que o desabonasse, as criaturas mais religiosas de seu tempo decidiram usar um ardil, uma falcatrua, um engano contra Jesus, com intuito de destruí-lo.

A bíblia diz que Jesus conhecia o coração dos homens (Jo 2.24), e que por isso não confiava neles. Jesus sabia exatamente com que intenção as pessoas o rodeavam, conhecia exatamente quem eram aqueles que estavam dispostos a segui-lo e quem eram seus inimigos. Ele conhecia o coração ardiloso do fariseu, o sapiente e inchado coração do escriba, e o cético coração do saduceu. Ele conhecia cada imagem da mente de Judas, de modo que este jamais pode esconder-se dele.

Mas Jesus não tinha apenas atributos divinos. Ele também era humano, e é sobre este Jesus homem que quero falar. O homem que abdicou de uma larga vida, de ter uma família, do carinho de uma esposa e do aconchego de um lar, de todas as comodidades de uma vida normal para experimentar sobre si a punição das nossas faltas. Aquele que, apesar da nobre missão que veio desempenhar, foi rejeitado pelos seus. Daquele que foi negado por Pedro, vendido por Judas, tratado com indiferença por Pilatos, espancado pelos soldados, crucificados pelos romanos e assassinado pelos meus pecados.

O momento da traição se aproxima, e Jesus vai ao Getsêmani orar. Em sua oração ele pediu o que qualquer homem pediria: “Passa de mim este cálice”, mas teve o discernimento que poucos homens possuem: “seja feita a tua vontade e não a minha”. O traidor se aproximava, e ele podia discernir seus passos de longe, de modo que a aflição aumentava. “Passa de mim este cálice”, dizia a sua carne, mas o sentido da sua missão o levava a sussurrar: “faça-se a sua vontade”.

Em cada aflição, “um anjo lhe fortalecia” (Lc 22.43). Ele passou três anos da sua vida consolando uma enorme multidão, mas na única ocasião que precisou de consolo e companhia, não houve amigos, não houve multodão, apenas anjos que o consolavam, situação emblemática que se perpetua na vida dos seus discípulos que vivem pelo senso da missão. Como diz Oswald Sanders, “a maior companheira do líder é a solidão” (ad tempora).

E veio o traidor, para com um beijo delatar o filho de Deus. Junto a ele, a comitiva que havia planejado o “dolo”, e que agora executaria seu plano macabro. Mas apesar da adrenalina envolvida naquele momento, Jesus não esboçou nenhuma surpresa: Ele definitivamente conhecia (de antemão) as intenções daqueles homens.

O processo de Deus é, muitas vezes, estranho aos nossos olhos. Seus caminhos envolvem grande tensão. Mas assim como a traição de Judas e o “dolo” dos seus inimigos não puderam frustrar seu propósito, do mesmo modo nenhuma traição, nenhum engano, nenhuma falsificação, nenhuma tristeza, nenhuma lágrima, nenhum abandono, nada... Absolutamente nada, pode frustrar o seu designo em nós. Nada pode surpreender aquele que conhece as maquinações dos perversos.

O Senhor cumprirá o seu propósito para comigo! Teu amor, Senhor, permanece para sempre; não abandones as obras das tuas mãos! (Salmo 138.8 – NVI)
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14 setembro 2010

Guardo nos olhos a simplicidade da minha terra

Alguns insights sobre a graça comum



Por Leonardo Gonçalves

Deus é um Ser de infinita graça e grandeza. Revela-se de modo suficiente nas Escrituras, mas sua essência é indizível. Transcendente, ele está além de toda descrição; sem, no entanto, perder sua imanência. Ele é "Totalmente Outro" ao mesmo tempo em que é "um como eu" pela revelação da kenósis; mistério assombroso da fé, que enche os corações de esperança e consolo.

Os reformados, ao apregoar suas doutrinas, falavam sobre uma Graça Irresistível, com a qual Deus nos apaixona e nos atrai a ele. Verdadeiramente, não existe apologia que refute a teologia empírica de um chamado irresistível. O que os teólogos do livre-arbítrio negam em teoria, o professam na prática, pois foram tão irresistivelmente atraídos que já não querem ir para longe de Deus.

No entanto, existe ainda uma manifestação mais sutil da Graça. Tal manifestação não é salvífica ou "soteriológica", mas divina no sentido em que reflete os atributos de Deus de um modo maravilhoso e suave, transborda o peito de alegria e torna a vida humana mais feliz. Tal manifestação graciosa pode ser percebida naquela medida de bondade concedida ao ser caído, capacitando-o a produzir beleza, arte, sons, e toda essa variedade que torna nossa existência mais feliz.

As vezes esta graça me sorri. É quando eu percebo com maior claridade que apesar de toda amargura e tristeza que envolve a vida humana decaída, e que mesmo após a entropia desencadeada pelo primeiro pecado, vale a pena continuar vivendo. O que seria da vida sem a beleza das flores, sem a água fresca da fonte, sem as belas canções, sem a variedade de sabores ao paladar e todas estas coisas que fazem nosso coração bater acelerado, e declaram aos nossos ouvidos as obras de Deus?

Louvo a Deus pela Graça Comum, pela poesia e pela luz, pelo aroma do café pela manhã e por estas duas lindas canções que me fazem lembrar da minha querida Minas Gerais. Clique no "play", espere carregar e desfrute!

Paz e bem!







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Leonardo Gonçalves, com muita saudade da paisagem linda do interior do Brasil
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31 agosto 2010

Rir com quem ri... chorar com quem chora


Por Leonardo Gonçalves

Sábado Carlos casou. Não oficiei a cerimonia, mas foi quase isso. "Preguei" na boda, e me alegrei com eles.

Ontem Elias morreu. Ele tinha dois anos; a mesma idade do Ravi. Os pais dele tem a mesma idade que eu e Jonara. Estive com eles ontem e hoje, e acabo de chegar do cemiterio, onde preguei o sermão mais difícil da minha vida.

Tentei não chorar, mas lembrei da exortação biblica para se alegrar com quem se alegra e chorar com quem chora. Havia aprendido que o oficiante não deve se emocionar ou chorar, mas pensei que se fosse comigo, eu gostaria muito que meu pastor chorasse tambem, demonstrando se importar com a minha dor. Se Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro, por que razão eu não tenho direito de me comover pela morte de Elias? Não, eu não sou "mais homem" que Jesus, por isso permiti que as lgrimas rolassem por um momento.

Ontem, 30 de agosto, completou um ano que meu avô morreu. Não pude estar lá para confortar meu pai, mas hoje confortei alguém que até bem pouco tempo atrás não conhecia.

Uma vez alguém me perguntou o que é ser pastor. Na época, não soube responder. Se hoje me fizessem a mesma pergunta, eu diria que é "rir com quem ri e chorar com quem chora", o que síntese, é bem mais simples do que me ensinaram no seminário. Mas, ao mesmo tempo é tão complicado!

Que Deus ajude os pais do pequeno Elias. E que ele me ajude também.
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18 agosto 2010

A vida é erva: A vaidade do que se tem e a fragilidade do que se é



Por Leonardo Gonçalves

Anteontem passamos um bocado de susto. Já estava deitado quando Jonara e eu escutamos um barulho que até parecia uma orquestra de vuvuzelas. Olhei para a TV e vi que estava balançando. A cama tremia com força, mas eu não queria aceitar o que estava acontecendo. Fiquei sem ação, me distraí, mas fui desperto quando Jonara gritou: “terremoto!” Sai correndo, procurando a chave para abrir a porta, seguido por Jonara e Ravi. Os vizinhos já estavam na rua quando consegui sair da casa, e o chão ainda tremia. Felizmente, não foi nada grave: apenas 5,5 na escala Richter, com epicentro em Olmos, a alguns quilômetros daqui. Porém, as pessoas andam preocupadas, pois com este já vão cinco pequenos sismos consecutivos (12, 13, 14, 15 e 16 de agosto).

Moramos na mesma rua ha algum tempo, e não conhecia alguns dos meus vizinhos. Com outros, jamais havíamos trocado palavras, e nem mesmo eles conversavam entre si, mas naquela noite todos conversávamos como se fossemos velhos amigos. O sofrimento une. Já a prosperidade as vezes separa. É nas tragédias da vida que percebemos que somos todos iguais: O que acontece com o rico, acontece igualmente com o pobre.

Voltamos para casa. Jonara e Ravi dormiram logo, mas eu fiquei acordado pensando acerca da vida, perguntando a mim mesmo: “E se tivesse sido mais forte?”. Sim, e se tivesse sido um terremoto intenso? E se a casa desabasse em cima da gente? E se a gente perdesse tudo? (que é o pouco que temos). Em todo tempo ecoava em minha mente as palavras do sábio Salomão: “Vaidade de vaidades. Tudo é vaidade!”.

Lembrei que havia comprado um terno que gostei muito (e isso quase um milagre, pois eu detesto usar terno). Acontece que um irmão da nossa igreja vai casar e não dá pra discursar em uma boda com o mesmo jeans surrado com que vou na igreja todas as semanas. Dois dias atrás eu estava todo vaidoso, desfilando com o terno pela casa, experimentando a gravata nova e dizendo para a Jonara: “Olha como eu estou com cara de pastor!”, e ríamos. Lembrei também do quanto foi difícil conseguir a mobília básica da nossa casa. Vendemos todos nossos móveis antes de vir para cá, e o dinheiro não deu pra comprar muita coisa. Só agora, depois de três anos lutando, foi que conseguimos ter umas coisinhas bem básicas.

Concluí que realmente não existe nenhuma segurança de que o que temos é nosso, ou que será para sempre. De uma hora para outra, em questão de minutos você pode perder tudo.

Pensei na viagem do pastor Renato ao Haiti, e do avivamento que a igreja evangélica vive ali. Renato me disse que teve que dormir na rua, e que mesmo tendo dinheiro não dava para comprar pão. No entanto, os crentes não reclamavam e todos pareciam muito satisfeitos com Deus. Foi então que olhei para dentro de mim e descobri que apesar do susto, minha alma também estava avivada. Agora não estou teologizando, pensei. E emendei: “A vida é mesmo erva”.

Vaidade de vaidades”, diz o pregador. Tolo é o homem que confia nas riquezas, pois elas também são vãs.

Situações como estas são reveladoras. Nelas, entendemos que nada temos além de Deus, que o que possuímos é dEle, e o que somos, é por causa dEle. E, ao assumimos que nada temos além de Cristo, somos tomados por um gozo indizível; inefável. Faltam palavras, eu sei, mas o gozo é real.

Naquela noite, falei com Deus. Não lembro exatamente das palavras que usei, mas lembro que agradeci pela vida, e por me fazer entender que ter Deus é mais importante que qualquer coisa que a gente possa desejar na vida.

A graça dele é suficiente!



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Leonardo Gonçalves é missionário em Piura, Peru.


Clique e conheça!

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09 agosto 2010

Homenagem de dia dos pais


Por Leonardo Gonçalves

Não tenho experiência nisso. Até achava que tinha, pois quando fui para as missões, ainda com 18 anos e bem “verde” na fé, comecei a ganhar algumas almas, que eu chamava de filhos espirituais. Com o tempo, quando questionado por um crente pelo fato de ser um jovem sem filhos aconselhando famílias e abordando temas de pais e filhos, eu dizia: “todos vocês são meus filhos; como não posso falar com vocês sobre como criar filhos?” Gente, vocês nem imaginam o hilário que eu era! Até parecia o Estevam Hernandes: “Vai ter que me chamar de pai sim!” (risos). Quanta ingenuidade! E que mania besta de esconder a própria ignorância. Mas a vida quebra a gente, e através das depressões do caminho, Deus vai nos modelando e ensinando a ser mais servos dEle e menos senhores de si.

Sou marinheiro de primeira viagem, e meu moleque só tem 2 anos. Mesmo assim, já vi o suficiente para dizer que ser pai é uma das coisas mais maravilhosas que a gente pode experimentar nessa vida. Certamente há problemas, doenças, e umas situações estranhas que a gente as vezes não sabe como lidar. E ainda dizem que filho criado é trabalho dobrado, e eu oro a Deus para o Ravi não ser a metade do adolescente rebelde que eu fui, porque senão vou ficar careca e ranzinza bem antes dos quarenta. Aliás, ranzinza eu já estou!

Ontem meu garoto ficou doente. Anteontem também ficou. Garganta infeccionada, não quis saber de comer, e todo remédio que tomava, vomitava. Dá muita pena ver o filho da gente assim. Orei uma e outra vez, mas estava tão preocupado que, para ser franco, nem lembro o que foi que eu disse para Deus. Hoje ele amanheceu queimando em febre. Foi então que abracei ele e disse a Deus: “Meu filho está doente e o Senhor pode curá-lo, mas o Senhor só vai fazer isso se quiser, então, que seja feita a Tua vontade. Se ele for curado aqui eu direi obrigado; se eu tiver que levá-lo no hospital, eu te amarei do mesmo modo. Tudo o que eu quero é que o Senhor seja glorificado em nossas vidas. Amém”, e dali parti para o hospital. É o preço que eu pago por não ter comprado a toalhinha milagrenta do Valdemiro Santiago que eu vi à venda por cinqüenta reais quando fui ao Brasil no ano passado (risos).

Enquanto escrevo este texto, ouço a Jonara e o Ravi brincando. Ela está desenhando e ele está tentando adivinhar o que é. E eu, com os olhos marejados, fico aqui imaginando como é ser Deus. Se for verdade que ser Deus é ser pai – e eu sei que é – então posso estar seguro que ele jamais medirá esforços para me ajudar e me proteger, assim como eu faço com o Ravi. Obviamente isso não significa que nao passarei por algumas situações pesarosas nas quais terei que fazer a vontade dele ao invés da minha, o que é mais ou menos como quando eu falo grosso com o Ravi e o obrigo a comer toda a verdura do prato. E sei também que essas são coisas que ele não entende agora, mas que um dia vai entender e ainda vai me agradecer, exatamente como acontece com a gente nessa vida, em nossa relação com Deus. “O que eu faço, tu não entenderás agora”, disse o Mestre.

É claro que não podia deixar de prestar minha homenagem àquele a quem Deus deu o privilégio de carregar o bebê, brincar com o menino, desentender-se com o adolescente e reatar laços de amizade com o adulto e hoje também pai. Preciso agradecer o meu pai, o senhor Rubeci Gonçalves, com quem aprendi a ser homem. Ele não conhecia a Jesus como eu conheço hoje, mas isso nunca o impediu de ser uma pessoa sincera e honrada, o que prova que as leis de Deus estão escritas nos corações dos homens indistintamente. Ele perdeu o pai dele (o meu avô Eduardo) no ano passado, e eu apenas posso imaginar a barra que deve ter sido. Seria uma grande barra pra mim perder o meu velho e guerreiro, e não gosto nem de pensar na hipótese disso acontecer. No entanto, estou convencido que para aquele que confia sua vida à Cristo, toda separação neste mundo é apenas passageira, pois um dia todos nos reuniremos em Cristo, no céu. Queria muito estar com meu pai hoje, porque imagino que isso é importante para ele neste dia, quando ele lembrar do pai dele, assim como eu gostaria que o Ravi estivesse comigo se um dia eu “perdesse” o meu velho. Amor de filho não substitui amor de pai (e hoje eu sei disso!), mas ao menos consola. Vou ficar devendo esse abraço, porque o preço da redenção de muitas almas é o sacrifício da separação. Foi isso que Deus me ensinou naquela tarde inesquecível no museu Tallán.

Por último (mas não menos importante – aliás, é justamente o contrário), e já me acabando em lágrimas, quero agradecer a Deus por ter me dado o grande privilégio de ser seu filho, mesmo eu sendo aquele jovem rebelde e cheio de pecados, alguns dos quais ainda habitam os porões da minha alma e volta e meia querem me assolar. Não podem, porém, separar-me de Deus, pois nenhum pecado é maior que o sangue daquele que me comprou quando me salvou de mim mesmo. Quero felicitar a Deus neste dia dos pais (e porque não?), e dizer que não há nada mais recompensador do que viver intensamente para a Sua glória, e que não desejo honras nem louvores, não quero fama ou riquezas. Quero apenas viver para te servir e ser aquilo que o Senhor tiver reservado para mim.

A todos os pais que lêem este blog, um feliz dia!



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11 julho 2010

Como saber se amo a Deus?


Debati-me com esta pergunta durante todo o fim de semana, e provavelmente ela redundará no meu sermão deste domingo. “Como posso saber se realmente amo a Deus?” Como saber se meu amor não é fingido, hipócrita, fruto da conveniência ou um subproduto da religião?

Será quando faço o que é certo? Sim, talvez uma grande virtude moral possa ser a prova do meu amor por Deus. Contudo, o que dizer daquelas pessoas que fazem as coisas certas por motivos errados? Daqueles que não roubam, matam ou infringem leis porque tem medo de ir parar na prisão? Nem sempre aqueles que fazem o que é certo, o fazem pelas motivações corretas, de onde concluímos que não é fazendo coisas que demonstro que amo a Deus.

Será quando eu guardo os mandamentos? Pode ser. Jesus mesmo disse: “Se me amais, guardareis meus mandamentos”, logo, aquele que guarda os mandamentos pode estar amando a Deus. Porém, não devemos ignorar o fato de que no passado havia criaturas muito religiosas que guardavam muitos mandamentos, mas definitivamente não amavam a Deus, como por exemplo, os fariseus. E o que me impede de crer que mesmo hoje haja estas criaturas, que se camuflam na religião e fazem tudo que é certo, mas somente porque querem ser reconhecidos pelos demais? Por isso, guardar os mandamentos também não pode ser tomado como a “prova dos noves”.

Pode ser que medindo meu amor pelo meu irmão, encontre a resposta. Porém, devo admitir que amar os irmãos não é suficiente, e que é preciso aprender também a amar e a suportar quem é diferente de mim, pois se eu apenas cumprimentos os meus companheiros de fé, serei no máximo um fariseu melhorado.

Talvez se eu ajudar os necessitados. Mas o que dizer dos espíritas, que fazem isso o tempo todo? Será que eles amam a Deus de verdade somente porque entregam cestas básicas e fazem a “campanha do agasalho”? Certamente há algo mais, uma prova distintiva e irrefutável possa encerrar essa questão definitivamente.

Como saber se eu realmente amo a Deus? Voltamos, então, ao início de tudo.

Penso, porém, que a resposta mais cabível é esta: “Quando eu odeio o pecado”. Definitivamente isso pode provar se eu amo ou não a Deus. E não estou falando de não praticar o pecado, mas de odiá-lo mesmo quando casualmente tropecemos nele. Não são de Paulo as palavras “o que eu faço, isso aborreço”, isto é, odeio? Paulo não apenas odiava o pecado nos outros, mas em si mesmo.

Quando eu odeio o pecado, é porque eu odeio desapontar a Deus. É porque eu odeio tudo aquilo que impede a minha plena comunhão com ele. Quando odeio o pecado, descubro minhas verdadeiras motivações, e posso examiná-las, se são sinceras ou não. Qual foi a última vez que você sentiu ódio depois de cometer pecado? Quando foi a última vez que você sentiu ódio por ter levantado a voz para a sua esposa, ou por ter mentido para alguém? Na verdade, são tantas ações odiosas que cometemos que alguns leitores serão levados, em última instancia, a aborrecer (odiar) a própria vida. Porém, não é isso o que o cristianismo é? Aborrecer a sua velha vida com tudo de ruim que ela representa?

Existe ainda a questão: Odiar tanto pode transformar-me em um cristão deprimido?”. Não, obviamente. Odiar o pecado não faz de você um cristão amargado, mas um cristão arrependido. O caso é que se você é realmente salvo, você necessariamente amará as coisas que Deus ama e odiará as coisas que Deus detesta, e entre elas o pecado. E odiar o pecado não te transforma em um cristão sem graça, mas em um crente cheio da Graça de Deus.

No caminho do cristão existem algumas curvas, lombardas e buracos na estrada, nos quais as vezes você pode cair. Sei que isso vai totalmente contra o espírito dos cristãos triunfalistas dessa “nova era”, verdadeiros super-heróis com invejáveis predicados, super-crentes que nunca pecam ou caem. No entanto, se você é um verdadeiro cristão, então você certamente irá cair algum dia, isso porque não somos perfeitos e as vezes perdemos a luta contra o pecado. A diferença é que nunca estamos satisfeitos com este resultado. O crente que cai em pecado não se acomoda nunca. Ele é como o boxeador que ao perder, não se conforma com o resultado pede revanche.

Este é o tipo de pessoa que Deus quer que sejamos. Esse é o tipo de pessoa que ama a Deus!


Caro leitor,


Você realmente odeia o pecado? Em que proporção? A sua resposta a esta pergunta revelará a ti mesmo o tamanho do seu amor por Deus, porque não existe uma terceira via. Ou você ama o pecado, ou você ama a Deus, porque quem ama o pecado odeia ao Senhor.

Neste ponto certamente alguém dirá: “Espere um momento: Eu não odeio a Deus; eu simplesmente amo pecar”. A estes, quero dizer que existe algo ainda pior do que o ódio: a indiferença. Seja frio ou quente, porque ser indiferente é ainda pior do que odiar.
 

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